A cada vezExposição de Deise Marin - João Pessoa, 2000

A cada vez

O trabalho acontece a cada vez, conforma-se na especificidade de cada espaço. Embora não seja pensado para um lugar específico é só ali que se concretiza na ação que organiza alguns poucos elementos, como o sal, os cones e os cilindros. E desse modo o trabalho será sempre uma surpresa para o seu próprio projeto.

Valendo-se de um repertório contemporâneo da escultura, em que não há mais Escultura mas modos de ser da escultura, percebe-se uma ação que quer organizar e renovar o significado de formas e matérias. Parte-se da escolha de formatos, como os cones e os arcos, e de matérias, como o vidro e o sal, para uma ação que se pauta basicamente pelo relacionar e pelo dispor. Para cada espaço elabora-se uma ação, para cada ação tem-se uma feição do espaço para ser percebido pela imaginação que, para seguir dizendo com Gaston Bachelard, não pode ser o espaço indiferente entregue à mensuração e à reflexão do geômetra. Sendo o espaço vivido diferente do espaço projetado, no monastério o trabalho funde-se e se transforma num lugar impregnado de história. Reciprocamente, lugar e trabalho acrescentam-se de novas palavras.

E no âmbito do trabalho há mesmo a fala do transitório. Vê-se logo na predileção por matérias ativas como o sal e o vidro, vê-se pela escolha dos formatos circulares. E a premissa de um caráter simbólico dos materiais e das formas, desde logo, funde-se com suas próprias propriedades físicas incorporando-se ao modo de dispor e relacionar: o sal que corrói o metal ou se derrete sobre o arco de vidro, o sal prestes a cair dos arcos ou que procura moldar-se em cones.

Percebe-se assim que o vidro toma a forma de arcos que, enfileirados num lugar de passagem, compassam um caminhar ou ao menos propiciam um dado inusitado a um olhar oblíquo; ou, para um olhar atento, instiga a instabilidade de equilíbrio desse conjunto de contentores impróprios para o sal. Percebe-se nos cones que, num jogo de luzes e transparências, o dentro e o fora se conformam inteiramente no espaço. Cria-se um mundo de intimidade que se desfaz em reflexos, como que a dizer que a matéria do trabalho é fugaz como a luz. Fugaz como a agulha que atravessa o espaço deixando em seu rastro apenas a luz que reverbera em sua superfície. Em João Pessoa, no monastério, criam-se assim, no fazer de Deise Marin, novos horizontes em que o olhar vai e vem, deslizando e apoiando-se nos objetos.

Daniela Vicentini (outubro, 2000)