EmcontraExposição de Fábio Noronha, Fernando Burjato e Gabriele Gomes - Solar do Barão, 2001.

EMCONTRA

Fábio Noronha, Fernando Burjato e Gabriele Gomes são sem dúvida artistas da geração 90. Ou seja, todos nasceram no início dos anos 70 e tiveram sua infância marcada por cartilhas, mimeógrafos, massinhas de modelar, palavras de um hino nacional nunca memorizado, bandeiras hasteadas mais por disciplina imposta do que como fruto de qualquer possibilidade de nacionalismo e, entre tantas felicidades de criança, enfim, pelo sempre mais contundente processo de espetacularização do cotidiano que é a TV. Anos de formação dados sob a égide da ditadura militar que, já mais amena no final da década, viria a se dissolver nos anos 80, ao menos como poder instituído, e possibilitaria a boa dose de felicidade na prática que marca a época que é a pintura – felicidade e vontade de liberdade, do corpo, do coletivo. Sentimentos que levaram os artistas a se unirem em grupos, entre nós podemos citar o Moto-Contínuo, entre alguns outros. A formação de grupos definitivamente é uma marca da década de 80 para a historiadora da arte Adalice Araújo. Para a década de 90 podemos decididamente afirmar o contrário: são sempre mais pesquisas individuais, a vontade de ser artista de cada um, a impulsionar os artistas.

Fábio, Fernando e Gabriele realizam agora o projeto de exposição coletiva que nasceu desde que eram estudantes da Belas-Artes. Iniciam os três com a prática da pintura, talvez por terem escolhido efetivamente o curso de Pintura, talvez como referência do que se compreendia enquanto o significado de arte na época, modelo remanescente ainda da década de 80, com sua característica gestual e expressiva que se observa nas primeiras pinturas dos três artistas.

Impulso inicial, suas pinturas e desenhos vão cedendo lugar para uma reflexão mais lenta e passam a conviver com materiais os mais diversos – cera de abelha, parafina, bexigas, massinhas coloridas de modelar, purpurina, leite, mel, pétalas de rosa, fios de lã –, fotografias e vídeos – práticas intensas para Fábio e Gabriele.

Nesses dez anos de produção, autorretratos, paisagens, biografia, história da arte, palavras ácidas ou irônicas ou poéticas, que inspiram sedução, alegria, curiosidade, repulsa ou indiferença, transitam em diferentes momentos nos trabalhos desses artistas. Marcam trilhas que ora se cruzam ora correm paralelas ora seguem rumos próprios. Desse modo, nesta exposição, intitulada EMCONTRA, assistimos, simultaneamente, encontros e desencontros, correspondências e contraposições, entre as poéticas dos artistas.

Daniela Vicentini /outubro 2001