Percursossobre obra de Eliane Prolik na 25ª Bienal de São Paulo

Percursos

Como propõe Italo Calvino em La sfida al labirinto, a figura do labirinto concentra de dois modos a atitude hoje necessária para se enfrentar a complexidade do real. Por um lado, o mapa do labirinto, o mais detalhado possível, nos serve como recusa a visões simplistas que não fazem mais que confirmar os nossos hábitos de representação do mundo. Por outro lado, há o fascínio pelo labirinto enquanto tal, de perder-se no labirinto, de representar essa ausência de vias de saída como a verdadeira condição do homem. Diante disso, o que se pode fazer é definir a melhor atitude para se encontrar a via de saída, mesmo que essa via seja somente a passagem de um labirinto ao outro.

Essa bela compreensão da metáfora do labirinto – a escolha de uma atitude diante da complexidade do real para que se encontre uma via de saída que apenas conduz a outro labirinto – nos vem à mente ao refletir sobre alguns trabalhos de Eliane Prolik.

O labirinto implica na escolha de trajetos que por vezes fazem esquecer sua complexa arquitetura. Lida-se com seus percursos como um carro ao atravessar a malha urbana. Um furgão, por exemplo. Um tipo de carro que foi transformado em obra por Eliane Prolik, trazendo para o que seria apenas um percurso uma experiência incomum. O carro branco foi cortado com letras que formam trechos de frases de músicas populares. Proporcionando na visualidade do mundo uma afetividade inusitada quando um passante sem nem perceber completa a canção que ali não termina, o carro em seu transitar diz Nada Além. Como obra, procura alcançar um amplo público para lhe emprestar um despertar de memória.

O que era apenas um trajeto abre-se em possibilidades. Um procedimento comum às obras Gargue e No mundo não há mais lugar, confeccionadas para a 25ª Bienal de São Paulo.

Gargue realiza-se entre interioridade, passagem e transparência. Estendendo-se translúcida no espaço arquitetônico, em suas camadas espessas de véu branco, a obra mostra-se como escultura. Palavras cortadas espacializam-se embaçadas na frágil superfície do tecido, imprimindo na visualidade da obra fonemas que traduzem a musicalidade de balbucios de criança em uma estrutura forte de linguagem. Codificam palavras como bata batabá mémi mê ate pêti pti que significam quase todas as coisas para as crianças em seu esforço de adquirir a fala – são manifestações de um esforço.

A obra solicita a presença do espectador. Incita-o a percorrê-la, oferecendo-lhe, ao menos por um instante de seu caminhar, um abrigo íntimo, ainda que aberto a tudo o que está do lado de fora. Se a posição das letras indicam o interior da obra como o ponto de vista correto para sua apreensão, o dentro é tido como constante passagem, em que se inviabiliza em diáfanas espessuras a evidência do olhar, da escrita, do sentido de palavras. A fala dos espectadores que passam pela obra ressoa de um lado para o outro por dois microfones. Um espectador ouve a fala do outro que por sua vez o escuta. Somam-se muitos tipos de sons.

No mundo não há mais lugar surge primeiramente como coluna relacionando-se com as colunas da arquitetura do espaço. E depois vai acontecendo como embalagem dentro de embalagem até dissolver-se dentro do corpo do espectador. É uma escultura de bala que tem sua forma retirada do molde do espaço vazio da boca de um ser humano e se realiza como encaixe no corpo do espectador. A obra inventa-se num não-lugar. E funciona como um corpo que cala a fala de quem a experimenta. A obra estabelece ainda outro tipo de relação de troca com o espectador: compra-se a escultura de boca.

A forma da bala é a do vazio da boca da artista. A anatomia modelada revela marcas específicas de seu corpo. E a artista descobre que atitudes de infância decidem a forma que surge no molde – marcas da vida ficam impressas na forma do corpo.

Como na trama de um labirinto, os trabalhos vão se realizando em percursos sempre abertos a novas possibilidades. O espectador, ao experimentar o branco sobre branco das obras, atenta para o conjunto de relações que o envolve. As obras acontecem numa sucessão de instâncias que se multiplicam num espaço íntimo de memória. Em fragmentos que implicam em outros fragmentos vai-se criando um mapa complexo em obras que parecem apenas prolongar o espaço onde se manifestam.

Daniela Vicentini

Março/ 2002