um caminho de rendastexto de Daniela Vicentini sobre obra de Gabriele Gomes

A renda de bilros é uma indústria da beira-mar, destas mulheres loiras, de olhos azuis e rosto comprido — as da Foz, as de Leça e as de Vila do Conde— que passavam a vida à espera dos homens, enquanto as mãos ágeis iam tecendo ternura e espuma do mar…
Raúl Brandão

Um dia Gabriele Gomes me lançou, com palavras, a imagem de renda nas dunas. Não um pedacinho de renda numa porção de areia, mas dunas cobertas de rendas. Uma duna rendada. Parecia-nos impossível. Pensei nela no espaço e imaginei o céu e suas cores e nuvens, os horizontes cambiantes, o vento, a areia tomando conta de tudo. Imaginei caminhar e me deparar com essa paisagem. Como seria ela, seu contorno, sua abrangência?

Não sei se Gabriele já tinha pensado em como realizar essa imagem ou se ela estava ainda no âmbito das palavras, ainda sem um desenho preciso – apenas uma ideia próxima às palavras rendas e dunas.

Surgiu a oportunidade de realizar uma ocupação num espaço de exposição em Curitiba. Pensei organizar alguma coisa numa paisagem, podia ser o Parque São Lourenço. E a renda, onde poderia ser? Como seria?

Rendas tocariam dunas. Logo vimos, nesse parque, outra superfície, o espelho d’água. Tivemos a ideia do caminho de renda sobre o lago.

Já tinha me dado conta que nos trabalhos da artista uma noção de toque entre superfícies está sempre presente. Muitos falam sobre a impossibilidade do toque – preencher uma pegada com cacos de vidro ou deitar a cabeça num travesseiro no fundo do mar. Também o jorrar da tinta que se sobrepõe numa escultura de cor cria uma superfície sedutora, que não podemos tocar.

Penso ainda que a artista lida com o despertar da textura única das coisas. Sabe ser impossível transformar uma pele em outra – a textura da pedra é pedra, da areia é areia. Quando falo em pele sugiro uma exterioridade, a membrana única de cada corpo.

Gabriele aproxima texturas. Cria instantes de contato. Põe em evidência o intervalo entre diferentes coisas que se tocam – derramar leite num córrego, jogar purpurina no mar, deitar fios de lã sobre uma pedra, esticar rendas sobre o lago.

Os escritos da artista, que resolvemos publicar nesse projeto, são seqüências de imagens. Um discurso amoroso, contado em versos, recheado com situações possíveis em palavras – descasco abacaxi com as mãos. O bom humor e a melancolia revelam-se na percepção das experiências ou mesmo nas coisas mais corriqueiras – dobro esquinas, sinto odores que em mim se fazem.

A personagem está à procura – buscando azuis nas coisas que por mim passam. De certo modo, a ideia de passagem permeia a poética da artista. No passar dos dias insinuados na narrativa. Nas frases que revelam impressões instantâneas, lances de olhar, imagens que se esvaem – tudo é passagem.

O mar, com ondas que vão e vêm, permeia fotografias, escritos e pinturas. Um fio de lã esticado na praia redesenha o rastro das ondas deixado na areia. Fotografias mostram pegadas preenchidas com coisas diversas. As pinturas se fazem por formas escorregadias que se fixam no processo de seu esparramar. Um caminho feito com pequenas conchas distribuídas meticulosamente no chão antecede o caminho de rendas.

Disse que muitos trabalhos da artista nascem antes na escrita, são antes palavras: um pensamento poético antecede a ideia plástica –

teço rendas no deserto
azul do céu em desperdício

ou

renderia -me agora mesmo
como brancas tramas singelas
em contraste com o céu

lavaria a alma minha
como fazem as Marias
tecendo rendas ao léu

ou

areias de dunas que vão pelas mãos
são como espumas em pedras concretas
 
meus medos incertos caíram no chão
minhas ânsias não
continuam perpétuas

Como transformar as palavras em coisas?

Qual seria a renda? De onde viriam as rendas?

No sul da Ilha de Santa Catarina, no Ribeirão da Ilha e no Pântano do Sul, é comum o ponto tramoia da renda de bilro. Senhoras ainda fazem rendas. Algumas filhas, quase nenhuma neta. Não há escola de bilro, como um dia existiu nas Ilhas dos Açores, de onde vem a tradição portuguesa de fazer rendas.

As rendas são feitas em almofadas e a trama com os instrumentos em madeira, o bilro. Elas fazem quadrados de uns vinte centímetros, o quadro, a partir de um desenho feito num papelão, o pique. Depois emendam os quadros para fazer colchas ou outras peças.

As rendeiras do Ribeirão da Ilha sempre faziam os quadros com um contorno ao redor do desenho principal. O nome desse contorno é orela. A artista não queria quadricular o lago e sim criar uma superfície continua. Pediu às rendeiras que tirassem a orela para que o caminho de rendas não ficasse quadriculado. Sem a orela as rendas ficam imperceptivelmente unidas e formam um todo, como se fossem feitas de uma vez.

As rendeiras no Ribeirão da Ilha aprenderam isso, nunca tinham feito e gostaram de fazer rendas sem orelas.

O quadro de rosas da renda tramoia foi o escolhido. Agora falta montar o caminho de rendas, com a equipe técnica que nos garante que isso é possível. Estou curiosa e ansiosa para vê-lo criar nova paisagem.