peixinho, 20192019


Peixinho. aquarela e lápis sobre papel 21×15 cm e aquarela sobre papel sulfurizê 42×30 cm 2020
Nas festas de final de ano, sai para dar uma volta na praia, num lugar que tem cantos com rochas, mar, algas – mini observatório de vida marinha. Era véspera de Natal e eu estava pensando sobre uma meditação intitulada As doze noites santas. A sabedoria antiga conta que as forças espirituais de peixes configuraram os pés humanos e relaciona o evento com o nosso andar ereto e com nossa liberdade.
Numa gravura de 1520, atribuída a um mestre alemão, pode-se ver uma indicação deste conhecimento, da relação dos pés com peixes, e da relação de cada força zodiacal com um membro ou órgão do corpo humano.
Pensando essas coisas, sentei-me numa pedra. Entre o lugar em que fiquei e o mar, tinham rochas, algas e, bem perto de mim, uma poça de água. De repente, um peixinho sai de baixo da pedra e vem nadar perto dos meus pés. Achei coincidência eu estar pensando em peixes, pés, liberdade, o caminhar da vida. Fiquei olhando-o nadar até os meus pés, mexer a cabeça, achei até que veio conversar comigo, que me via. Observei o peixe, sua movimentação, o lugar e meus pensamentos.
Será que ele estaria preso nessa porção de água? Será que ele poderia sair se quisesse quando a maré enchesse? Quando vi tinha outro peixinho, igual, transparente. Meu amigo tinha companhia, abrigo sob a rocha, algas para comer. Estava tudo bem. O aquário natural era perfeito. Mas existe o grande mar. Um caminho até ele, com algas, pedras – um percurso um tanto íngreme – que seria preciso subir, como que escalar. Ele estava confortável em seu canto em que tudo parecia ir bem? Ignorava o grande mar? Sobreviveria?
No outro dia, voltei no local para fazer um desenho. O peixinho continuava lá. A primeira aquarela, num papel melhor, não deu muito certo, consegui fazer um pequeno esboço, com o intuito de ter um registro e observar mais (ilustração 2). Enquanto desenhava, uma criança de uns oito anos atravessou minha frente, nem me viu acho, e gritou para a mãe, apontando: olha um peixinho, um peixinho. Pegou um pedaço de madeira para mexer com ele. A mãe o chamou e ele foi. Terminei o desenho e quando estava saindo vi que o menino voltava.
No outro dia, desconfiada do meu registro, peguei o smartphone para fotografar o peixe em seu entorno. Ele não estava mais lá. Não sei se nadou até o mar, se o mar veio buscá-lo com a alta da maré (a poça agora se comunicava com o mar), se o menino o pegou, se estava escondido sob a rocha, se está vivo. De algum jeito, a conversa que tive com o peixinho falava de coisas que me diziam respeito – talvez sempre tenha um aquário e o mar.