PAISAGEM NA ARTE – EXPEDIÇÃO ARTÍSTICA

O que é:

A Expedição artística com Daniela Vicentini / Edição Farol Rio Sagrado apresenta um panorama da história da paisagem na arte, do Renascimento à arte moderna. Encontro para estar na natureza, fazer caminhadas, vivenciar um conteúdo, estar com pessoas. As atividades artísticas são parte do processo de aquisição do conteúdo, não é preciso saber desenhar nem pintar, basta estar disposto a experimentar. A primeira edição aconteceu em Florianópolis.

Local:

A Casa Rio Sagrado é um complexo de residências na região serrana de Morretes, Pr. O local une conforto respeitando as condições da fauna e flora em seu entorno. Um lugar para pouso e contato com a paisagem que se abre para receber a proposta de Daniela Vicentini.

Pré-requisitos:

O curso é voltado para jovens e adultos, artistas ou não artistas e que tenham interesse em compreender os movimentos de construção da paisagem na história da arte. As caminhadas são de baixo grau de dificuldade.

Inscrições:

Valor do pacote: R$ 890,00 por pessoa (o pacote inclui: curso + materiais do curso + hospedagem em instalação coletiva + 3 jantares)

Vagas: 8
Prazo de inscrição: 4 de junho

Evento no Facebook: https://www.facebook.com/events/690891957769268/

um caminho de rendas

A renda de bilros é uma indústria da beira-mar, destas mulheres loiras, de olhos azuis e rosto comprido — as da Foz, as de Leça e as de Vila do Conde— que passavam a vida à espera dos homens, enquanto as mãos ágeis iam tecendo ternura e espuma do mar…
Raúl Brandão

Um dia Gabriele Gomes me lançou, com palavras, a imagem de renda nas dunas. Não um pedacinho de renda numa porção de areia, mas dunas cobertas de rendas. Uma duna rendada. Parecia-nos impossível. Pensei nela no espaço e imaginei o céu e suas cores e nuvens, os horizontes cambiantes, o vento, a areia tomando conta de tudo. Imaginei caminhar e me deparar com essa paisagem. Como seria ela, seu contorno, sua abrangência?

Não sei se Gabriele já tinha pensado em como realizar essa imagem ou se ela estava ainda no âmbito das palavras, ainda sem um desenho preciso – apenas uma ideia próxima às palavras rendas e dunas.

Surgiu a oportunidade de realizar uma ocupação num espaço de exposição em Curitiba. Pensei organizar alguma coisa numa paisagem, podia ser o Parque São Lourenço. E a renda, onde poderia ser? Como seria?

Rendas tocariam dunas. Logo vimos, nesse parque, outra superfície, o espelho d’água. Tivemos a ideia do caminho de renda sobre o lago.

Já tinha me dado conta que nos trabalhos da artista uma noção de toque entre superfícies está sempre presente. Muitos falam sobre a impossibilidade do toque – preencher uma pegada com cacos de vidro ou deitar a cabeça num travesseiro no fundo do mar. Também o jorrar da tinta que se sobrepõe numa escultura de cor cria uma superfície sedutora, que não podemos tocar.

Penso ainda que a artista lida com o despertar da textura única das coisas. Sabe ser impossível transformar uma pele em outra – a textura da pedra é pedra, da areia é areia. Quando falo em pele sugiro uma exterioridade, a membrana única de cada corpo.

Gabriele aproxima texturas. Cria instantes de contato. Põe em evidência o intervalo entre diferentes coisas que se tocam – derramar leite num córrego, jogar purpurina no mar, deitar fios de lã sobre uma pedra, esticar rendas sobre o lago.

Os escritos da artista, que resolvemos publicar nesse projeto, são seqüências de imagens. Um discurso amoroso, contado em versos, recheado com situações possíveis em palavras – descasco abacaxi com as mãos. O bom humor e a melancolia revelam-se na percepção das experiências ou mesmo nas coisas mais corriqueiras – dobro esquinas, sinto odores que em mim se fazem.

A personagem está à procura – buscando azuis nas coisas que por mim passam. De certo modo, a ideia de passagem permeia a poética da artista. No passar dos dias insinuados na narrativa. Nas frases que revelam impressões instantâneas, lances de olhar, imagens que se esvaem – tudo é passagem.

O mar, com ondas que vão e vêm, permeia fotografias, escritos e pinturas. Um fio de lã esticado na praia redesenha o rastro das ondas deixado na areia. Fotografias mostram pegadas preenchidas com coisas diversas. As pinturas se fazem por formas escorregadias que se fixam no processo de seu esparramar. Um caminho feito com pequenas conchas distribuídas meticulosamente no chão antecede o caminho de rendas.

Disse que muitos trabalhos da artista nascem antes na escrita, são antes palavras: um pensamento poético antecede a ideia plástica –

teço rendas no deserto
azul do céu em desperdício

ou

renderia -me agora mesmo
como brancas tramas singelas
em contraste com o céu

lavaria a alma minha
como fazem as Marias
tecendo rendas ao léu

ou

areias de dunas que vão pelas mãos
são como espumas em pedras concretas
 
meus medos incertos caíram no chão
minhas ânsias não
continuam perpétuas

Como transformar as palavras em coisas?

Qual seria a renda? De onde viriam as rendas?

No sul da Ilha de Santa Catarina, no Ribeirão da Ilha e no Pântano do Sul, é comum o ponto tramoia da renda de bilro. Senhoras ainda fazem rendas. Algumas filhas, quase nenhuma neta. Não há escola de bilro, como um dia existiu nas Ilhas dos Açores, de onde vem a tradição portuguesa de fazer rendas.

As rendas são feitas em almofadas e a trama com os instrumentos em madeira, o bilro. Elas fazem quadrados de uns vinte centímetros, o quadro, a partir de um desenho feito num papelão, o pique. Depois emendam os quadros para fazer colchas ou outras peças.

As rendeiras do Ribeirão da Ilha sempre faziam os quadros com um contorno ao redor do desenho principal. O nome desse contorno é orela. A artista não queria quadricular o lago e sim criar uma superfície continua. Pediu às rendeiras que tirassem a orela para que o caminho de rendas não ficasse quadriculado. Sem a orela as rendas ficam imperceptivelmente unidas e formam um todo, como se fossem feitas de uma vez.

As rendeiras no Ribeirão da Ilha aprenderam isso, nunca tinham feito e gostaram de fazer rendas sem orelas.

O quadro de rosas da renda tramoia foi o escolhido. Agora falta montar o caminho de rendas, com a equipe técnica que nos garante que isso é possível. Estou curiosa e ansiosa para vê-lo criar nova paisagem.

Nome

denominação, designativo, designação.
palavra que expressa alguma característica de um indivíduo ou circunstância da sua vida, pela qual ele é conhecido.

Os nomes são: Alex Cabral, Carina Weidle, Cleverson Oliveira, Débora Santiago, Eliane Prolik, Fábio Noronha, Fernando Burjato, Francisco Faria, Gabriele Gomes, Geraldo Leão, Glauco Menta, Lilian Gassen, Lívia Piantavini, Luciano Buchmann, Luciano Mariussi, Luiz Rodolfo Annes, Otávio Roesner, Rafael Tavares, Raul Cruz, Rossana Guimarães, Tony Camargo, William Machado e Yiftah Peled.

A exposição nome nasce da premência de ver reunidas obras de artistas que têm vínculos diversos com a cidade de Curitiba. Ela não resulta, porém, como conclusão de uma pesquisa. nome acontece enquanto projeto para gerar discussões sobre características da visualidade que se tem construído neste território desde os últimos quinze anos, período a partir do qual acreditamos estar se constituindo uma densidade na discussão artística local. Esta mostra tem a ambição de tensionar e objetivar um debate efetivo sobre tal produção. Como designar, portanto, uma exposição que se esboça? Para encontrar um nome é preciso gerar uma situação de convívio, se é que desse modo surgirá um denominador comum para as obras que estão expostas aqui.

Por outro lado, nome diz respeito ao sujeito. É uma palavra que expressa alguma característica de um indivíduo ou circunstância da sua vida, pela qual ele é conhecido, na definição do dicionário Houaiss. Com efeito, para que pudéssemos nortear a escolha dos trabalhos, optamos por investigar como neles se dá a presença da subjetividade. Encontramos algumas possibilidades imediatas: como presença indicial, onde o corpo aparece na obra como decalque ou como imagem direta em fotografias e gravações; como referência a objetos ou imagens de objetos cotidianos carregados de afetividade; como construção simbólica, onde formas do corpo são construídas plasticamente; como construção da identidade em formas abstratas e gestos; como alteridade; como ausência e dispersão no coletivo. Na exposição observamos auto-retratos, pernas, espelhos, máscaras, cadeiras, casas, palavras, paisagens, conchas. Afinal será que a imagem do rosto do artista fala mais de subjetividade do que uma paisagem feita por ele?

As obras que integram a exposição foram definidas por um processo que valorizou o desejo das curadoras e de cada artista. Trabalhos de relevância histórica convivem com outros recentes, algumas vezes indicados pelos seus autores.

Tendo em consideração a maleabilidade de seus limites, a exposição nome ocorre como possibilidade de produzir um embate estético com as obras que, desse modo, se postam como o sujeito que nos interroga.

Galeria de imagens:

fotografias de Marcelo Almeida

De como olhar o-mesmo-sempre/ Sul modo di guardare lo-stesso-sempre/The art of looking at the always-the-same

“Outro sistema seria falar-lhe olhando para o mar,
como um louco contemplativo e simplório.”
(Adolfo Bioy Casares)

O “outro sistema” de Bioy Casares é o litoral por onde navega a pintura de Daniela Vicentini. Que conduz desde o ponto de vista de quem olha em direção ao mar, de quem estando em terra vislumbra o oceano. Se o mar suscita a contemplação de um louco simplório é porque, talvez, ele seja avesso à complexidade simbólica.

No oceano há, aparentemente, algo de sempre-o-mesmo, de vastidão homogênea, de monotonia ritmada. As aquarelas e feltragens de Daniela Vicentini nos mostram, contudo, que rasas são apenas as bordas e que profunda é a experiência de se olhar o-mesmo-sempre. No caso dela, geograficamente, o-mesmo-sempre é a praia do Campeche, paisagem austral a estibordo da jangada Ilha de Santa Catarina.

Ao invés do instinto pragmático, por exemplo, do pescador, Daniela Vicentini se entrega, primeiro, à inércia. É somente quando cessa a ação (instante esse tão caro aos grandes observadores e… caçadores) e suspende a propensão desejante do espírito (movimento interno próximo à meditação) que a artista se torna parte da paisagem e assim pode pronunciá-la.

Dizer através da pintura. De uma pintura que traz em seu fazer o vestígio do úmido, do molhado. Tanto a aquarela quanto a feltragem são técnicas que precisam da água para a sua realização. A presença dos feltros nesta exposição é um dos índices da sofisticação de seu pensamento plástico sobre o mar. A pintura aplicada sobre eles permite-lhe avançar no espaço, sem deixar de lado a leveza da aquarela.

Ter os olhos vidrados no horizonte líquido me faz lembrar os versos do poeta italiano: “Muito mar. Nossos olhos já viram bastante de mar” (Cesare Pavese).

Sul modo di guardare lo-stesso-sempre

 Un altro sistema sarebbe parlargli guardando il mare,

come un folle contemplativo e ingenuo.”

(Adolfo Bioy Casares)

             L “altro sistema” a cui si riferisce Bioy Casares è il litorale lungo il quale naviga la pittura di Daniela Vicentini, che ci guida dal punto di vista di chi guarda il mare, di chi, rimanendo a terra, intravede l’oceano. E se il mare suscita la contemplazione di un folle ingenuo è forse perchè costui è refrattario alla complessità simbolica.

           C’è nell’oceano, apparentemente, qualcosa di sempre-lo-stesso, di vastità omogenea e monotonia ritmata. Gli acquarelli e le feltrature di Daniela Vicentini ci rivelano tuttavia che di piatto ci sono soltanto i bordi e che è profonda l’esperienza di guardare lo-stesso-sempre, che, nesi suo caso, geograficamente, sarebbe la spiaggia di Campeche, paesaggio australe a dritta di questa zattera chiamata Isola di Santa Catarina.

           Invece che dall’istinto pragmatico, per esempio, del pescatore, Daniela Vicentini si affida, dapprima, all’inerzia.  Solo quando cessa l’azione (istante questo tanto caro ai grandi osservatori e… cacciatori) e svanisce la propensione desiderosa dello spirito (movimento interno che potremmo associare alla meditazione), l’artista diventa parte del paesaggio in modo tale da poterlo comunicare.

           Questa informazione Daniela ce la trasmette per mezzo della sua arte, una pittura che porta con sé tracce di umido e di bagnato, anche perché l’acquerello e la feltratura sono tecniche che richiedono l’uso dell’acqua per la loro realizzazione. La presenza dei feltri in questa mostra è uno degli indici della soffisticazione della sua riflessione plastica sul mare. La pittura applicata sui feltri permette all’artista di avanzare nello spazio, senza rinunciare alla leggerezza dell’acquerello.

           È possibile che, uscendo dalla mostra, qualcuno si trovi davanti il mare, situazione più che probabile per chi si trova sull’isola. E se questo qualcuno fossi io, altrettanto probabilmente mi ricorderei sicuramente dei versi di un poeta italiano che aveva gli occhi fissati sull’orizzonte liquido azzurro: “Molto mare. I nostri occhi  hanno visto sempre tanto mare” (Cesare Pavese).

 (traduzione Valeria Vicentini e Letizia Zini)

 

The art of looking at the always-the-same

´Another way would be to speak to you while looking at the sea,

like a crazy, contemplative simpleton.´

(Adolfo Bioy Casares)

Bioy Casares´ ´other way´ is the coast along which Daniela Vicentini´s painting sails. She leads us from the point of view of someone who looks towards the sea; someone who is on land but sees the ocean. And if the sea invites the contemplation oogf a crazy simpleton, it is because the sea is perhaps the opposite of symbolic complexity.

The ocean seems to hold something of the always-the-same, of the homogenous vastness, the rhythmic monotony.

The watercolours and felt art of Daniela Vicentini show us in essence that only the frames are shallow: looking at the always-the-same is a profound experience.

In her case, the always-the-same is geographically Campeche beach, the southern and starboard landscape of this long raft called the Island of Saint Catherine.

Instead of the pragmatic instinct of the fisherman for example, Daniela Vicentini surrenders herself to inertia in the first instance. It is only when the action stops (that moment that is so prized by great observers and .. hunters) and when the endless desiring of the spirit is suspended (an internal movement we can associate with meditation), that the artist becomes part of the landscape, being able in that way to express this landscape.

She shares this perspective with us through her painting: a form of painting that carries in its creation a vestige of humidity, of wetness. Both watercolours and felt art are techniques that require water to be created. The presence of felt in this exhibition points to the sophistication of her flexible thoughts about the sea. Painting applied directly on the felt allows us to move towards the space, without losing the lightness of watercolour. (Dani – vc pintou encima da feltragem?)

It is possible that when leaving this exhibition, someone sees the sea outside: a most likely situation for those who live on the island. And if I was this someone, it would possibly remind me of the words of an Italian poet whose eyes were glazed by the blue liquid horizon. ´A lot of sea. Our eyes have already seen a lot of sea.´ (Cesare Pavese)

(translation Bèbhinn Ramsay)